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Forma : Plural

Releitura do viver bem

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Uma casa com vagas

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Tem gente que sonha com a casa perfeita, aquela digna de capa de catálogo, com móveis e acessórios impecáveis, com espaço meticulosamente calculado pro tamanho da felicidade genérica.

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Eu sempre flertei com as casas imperfeitas, morei em várias delas. Pra mim, casa perfeita nunca passou de lenda, por isso prefiro casa com vagas, sempre pronta a receber intervenções, presentes, festas, amigos.

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Acredito que casa é o alicerce que moldamos com o tempo, que retrata nossas mudanças e conta a nossa história mas que, acima de tudo, é o lugar que nos acolhe e pra onde sempre temos vontade de voltar.

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Por aqui é assim, uma casa com crianças, bichos, parentes e até desconhecidos que se tornam amigos. Nada é definitivo, permanente é só a possibilidade de uma nova mudança. Os móveis vivem em crise de identidade e levam uma vida cigana, os jardins sempre têm uma nova companhia, os cômodos se reinventam e até o dia e a noite se misturam.

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É uma casa que serve de moradia e trabalho; onde se dança, canta, reza, ri e chora. Onde os enfeites decidem por conta própria trocar de lugar ou onde as pessoas se sentem à vontade para doar um objeto de caso pensado onde deve ficar. Nem sempre as coisas estão como imaginei, estão do jeito que ficaram. E quer saber? Tá ótimo, faz um bem danado um layout versátil.

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Conto com a sorte de viver numa casa cheia, onde posso ver mais do que os meus olhos enxergam: as celebrações nas marcas de copo no aparador de madeira, a animada brincadeira nos fios puxados do tapete, as inúmeras lembranças naquela gaveta emperrada e as barulhentas reuniões dos passarinhos nas sementes que brotam ao acaso.

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Até mesmo as louças mais metidas já entenderam que nessa casa elas precisam estar prontas a qualquer dia e qualquer hora, porque não acreditamos em datas especiais, acreditamos sim que tornar o banal extraordinário é mais uma questão de estado de espírito do que de calendário.

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Brindamos e acendemos velas em todas as estações do ano, sempre temos vagas para quem chega e também para aqueles que decidem pernoitar e usar nossa casa como férias. A piscina é pequena e aquecida a calor humano e a grama surrada é reflexo de muito jogo de bola. E embora tudo pareça um total descompromisso, uma casa com vagas é o resultado de muito envolvimento e observação, regados a uma baita dose de alegria.

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Essa matéria foi desenvolvida pelo Forma:Plural e publicada originalmente na 3a. edição da Revista OcaPop.

 

 

Móvel vestido

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Móveis velhinhos, essa é uma das minhas paixões, e das grandes! Já pintei com cores de doer os olhos, desenhei, raspei a pintura pra criar um efeito detonado…Foram tantas as técnicas e pirações, que nem sou capaz de me recordar de todas elas. Mas uma delas, em especial, costumo usar quando o tempo anda curto e a ansiedade enorme: revestir móvel com tecido. Além dessa técnica ser bem mais rápida que uma pintura, ainda permite inúmeras possibilidades, como revestir um móvel inteiro ou apenas um detalhe. Ah, e a variedade gigante de estampas pra gente ficar naquela baita dúvida? Se já enxergou uma peça meio caidinha por aí, que rapidinho ficaria lindona com um tecido simpático, aqui e aqui têm algumas inspirações e dicas de como fazer.

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A Tenda dos Milagres

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Tenho o grande prazer de iniciar 2016 literalmente colhendo frutos, mais precisamente maracujás. Foi um pouco mais de um ano bem complicado, onde precisei aprender um bocado e até lidar com ataque de lagartas. Mas é assim mesmo, se a gente quer um jardim com borboletas, conviver com lagartas faz parte do pacote, né? Foi um aprendizado que exigiu e ainda exige uma baita paciência e muita observação. Diversas vezes bateu aquela vontade de declinar mas, nesses momentos, aparece algum amigo elogiando o que você considera ser um mísero pé de fruta que não dará em nada, sua irmã se empolga e te presenteia com uma tenda que sirva de suporte para que ele cresça bacanudo, e assim você volta a botar fé e o ânimo vem à tona. E com casa, de uma maneira geral, funciona assim. É necessário muito flerte, não dá simplesmente pra mandar aquela cantada objetiva e achar que vai rolar na primeira. Na real, casas de verdade demandam cantadas permanentes. É preciso coragem, é preciso driblar a rotina e, acima de tudo, é fundamental ignorar o calendário, porque não se dota uma casa de estado de espírito com data marcada. E, quando menos se espera, acontece uma daquelas coisas boas da vida: os maracujás nascem e um novo espaço para receber aparece bem no seu quintal.

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A qualidade das coisas perdidas

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Gosto da qualidade das coisas dadas como desenganadas, casos perdidos, que ninguém bota fé, pois elas nos dão a chance de errar sem deixar nenhum traço de remorso. Com esse criado-mudo foi assim: peça doada, que  habitou um lar por uma vida inteira mas, um dia, sua validade expirou. Acolhi, como costuma ser do meu feitio, saquei fora toda a grossa camada de verniz, elegi um novo puxador, recortei EVA, construi um carimbo e achei que azul lhe cairia muito bem. Essa peça me deu a oportunidade de experimentar e perceber que a parte mais bacana de qualquer processo é o aprendizado que se tira no meio do caminho, especialmente das coisas perdidas.

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Invasão de garagem

Ando me especializando no assunto “invasão de garagem”, essa já é a segunda que realizo. A gente vê aquele espação agradável, onde a brisa corre suave e logo pensa que seria o local perfeito pra ficar à toa e receber amigos. Não demora muito, descobrimos um abatjour que pode ser bastante útil com uma cúpula nova, que o jogo de sofá revive com uma boa dose de tinta e que aqueles paninhos guardados no fundo do armário rendem as almofadas que serão responsáveis pelo conforto e descontração. E assim nasceu uma sala na minha garagem e com ela as noites ficaram muito mais bacanas e os armários bem mais vazios.

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Um livro na parede

E por que não? Uma boa história vai com a gente pra qualquer lugar, é feita para ser contada, ser lida, relida, ser vista. E extrair  a mesmice das coisas faz um bem danado.

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Uma única cor, uma cor vibrante, seis cores numa única parede, meia parede, tecido colado na parede. A verdade é que as minhas paredes já viram um bocado de coisas. Mas foi nessa última mudança que reservei uma parede, nem das grandes, para ter algo especial. O que seria? Não tinha a menor ideia…Pensei em recortes adesivos, imaginei palmeiras com cores radiantes, mas foi numa livraria que encontrei o que procurava: o papel de parede dos meus sonhos estava na forma de um livro, um grande clássico com ilustrações de Yayoi Kusama.

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Admito que a ideia de desmontar um livro todo e colá-lo me deixou um pouco perturbada, por outro lado seria a oportunidade única de ter um livro sempre aberto. E assim, Alice, tipografias, criaturas falantes e até um chá maluco entraram para a história dessa casa. E quem entra ou sai inevitavelmente faz uma pausa para leitura, observa mais detalhadamente algum desenho ou apenas sorri. E extrair sorrisos também é uma coisa muito boa de se fazer!

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Móveis + tecidos

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Quem frequenta o Forma:Plural há algum tempo, com certeza flagrou todo o carinho que cultivo pelos móveis cheios de história pra contar. Claro que, sendo assim, na minha casa não seria diferente: para onde se olha, tem uma peça garimpada ou herdada, em estado original, pintada ou estampada à mão e, quando o tempo anda escasso, revestida em tecido. Renovar um móvel com tecido é rápido, não faz uma baita sujeira e, pra quem curte estampa como eu, é um delírio.

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Não exige muita habilidade nem tem muito segredo, basta um pouco de paciência. A escolha do tecido é muito importante: quanto mais poroso, melhor, pois absorve bem a cola. Costumo passar bastante cola tanto no móvel quanto no tecido já aplicado e espero secar bem, normalmente aguardo uns 2 dias. Depois disso, faço o acabamento com estilete nas sobras de tecido e capricho na aplicação do verniz spray.

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E por aqui os tecidos revestem a parte interna também pra trazer um pouco de cor a uma peça de madeira bem escura. É um recurso interessante para ser usado em gavetas, na parte interna de portas, afinal de contas é uma boa surpresa abrir um móvel e se deparar com uma estampa da qual gostamos bastante.

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Mas não apenas com tecidos estampados tiramos bom proveito, os com textura, como o laise, também são um prato cheio e, se tiver algum aviamento de bobeira para criar uma firula, por que não usar?

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Feito à mão

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Não é pelo custo, é pelo prazer de executar, arejar a mente, incluir pensamentos naquilo que é palpável. Seja lá qual for a técnica que domine, o exercício do fazer com as próprias mãos uma almofada, um arranjo de flores, um saquinho para perfumar as roupas, renova a gente e a casa.

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A minha primeira parede branca

Excetuando as paredes de azulejo de uma lavanderia e duas cozinhas , nunca pintei nenhuma outra de branco. Acho que quando a gente entra numa casa, seja alugada ou própria, rola aquela conversa rápida onde flagramos a entrada de luz, reparamos no piso, pensamos nos nossos móveis ali dispostos e, logo em seguida, as paredes sussurram em nossos ouvidos a cor que gostariam de ter. E nunca nenhuma me pediu para ser pintada de branco.

Com minha casa atual, para a qual me mudei faz uma semana, a conversa foi bem diferente, para o total espanto da família inteira. Enquanto muitos se assustam com as cores fortes, por aqui o desespero geral era viver numa casa branca. Depois de provar minha sanidade,  e explicar em detalhes que ela seria “praticamente” branca e que teríamos uma cozinha cinza, uma parede roxa aqui, uma azul ali, os ânimos se acalmaram um pouco.

Ainda tem muita coisa para ser feita, algumas caixas para serem desfeitas, e a conversa ainda renderá um bocado. Os cantos a serem descobertos são muitos, tem muita vaga adormecida à espera de uma boa dose de carinho, mas aos poucos chegaremos lá, com direito a muitas risadas, bastante bagunça pelo caminho e, claro, muitos móveis velhinhos e estampas.

sala

sofa marrom

jantar

sofa verde

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