Costumo aproveitar os feriados para promover mudanças aqui em casa, prefiro viajar em épocas mais tranquilas. E, como o almoço de Páscoa será aqui, tinha motivos de sobra para dar aquela geral na casa como um todo.

Foi um tal de arrastar móvel, prender e redistribuir quadros e espelhos, espalhar flores pela casa. A área que mais sofreu mudanças foi a externa, onde possuímos uma pequena sala de estar e mesa de almoço.

Repintei mesa de centro, encapei um antigo baú com tecido, reformulei a diagramação do espaço e abri mão de um quadro que me acompanhou em quase todas as minhas moradias. Foi difícil, não nego, mas estava na hora de deixar sentimentos novos entrarem.

Exercer o desapego não é tarefa fácil, mas fiquei muito feliz com o desfecho. O quadro irá adornar a sala da minha irmã, que na semana passada havia me pedido uma sugestão do que colocar em sua parede. Ela sempre foi apaixonada por ele e foi um super presente sua reação ao telefone quando soube que aquele quadro agora estaria entre seus pertences.

Embora tenha ficado satisfeita com o resultado de toda transformação da parte externa, ainda havia ali um vazio, capaz de ser preenchido apenas com objetos que possuíssem muita história. Pensei nas cores que desejaria pincelar pelo ambiente e liguei para minha mãe.

Em sua casa tem um acervo enorme de peças artesanais pois, a cada viagem que meu pai realizava, fazia questão de trazer muita coisa. Passava longos períodos fora e sabíamos que estava retornando quando a van do aeroporto encostava em nossa porta com suas entregas: carrancas, quadros, toalhas de renda, objetos multicoloridos de barro.

Mas, do mesmo modo que foi uma decisão difícil me “desfazer” do quadro, convencer minha mãe a doar determinadas peças, especialmente a Filomena ( uma estátua alta de barro, que funciona como luminária de velas ), exigiu um esforço maior ainda.

O problema não era a doação em si, mas o Jorge, nosso labrador, dar um esbarrão em algum móvel e vir a quebrar alguma peça. Super compreensível! Mesmo assim, a questionei se era melhor correr o risco e deixá-las expostas ou continuar tudo da forma como está, devidamente embaladas no fundo do armário.

Depois de uma pausa silenciosa, ela me contou que um dia perguntou a meu pai o motivo de tantos objetos, visto que nem tudo poderia ser exposto, e ele respondeu que um dia os filhos teriam suas casas e que, em algum momento, poderiam ser de grande valia. Foi um  alívio, pra mim e pra ela, e agora a Filomena e tantos outros terão um novo destino.

E acho que é assim para tudo aquilo que gostamos, precisam ser curtidos, renovados. O medo de que quebrem, empoeirem, não pode ser mais forte do que a alegria que nos proporcionam estando à vista. Se nós não duramos para sempre, por que achar que eles devam durar? Enquanto existirem, que nos tragam felicidade num canto especial da casa e, no dia em que nos abandonar, estejam eternizados nas fotografias e histórias.

Amanhã, com a família toda reunida e com a chegada desses objetos tão queridos, tenho a certeza de que terei a melhor Páscoa que poderia desejar. Uma feliz Páscoa a todos vocês, que seja um momento de grandes mudanças e alegrias!

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