Meu pai era apaixonado por relógios de parede, aqueles que necessitam de corda diária e, muitas vezes, sempre no mesmo horário, porque são temperamentais.

Tínhamos relógios na sala, na cozinha e num quintal fechado. A guardiã dos relógios era minha avó, que inclusive tinha lá suas técnicas pouco convencionais quando algum deles resolvia emperrar.

Aquele barulhinho do tic tac era uma coisa deliciosa. Na preguiça do meio da tarde, deitava no sofá fitando a estante, os olhos passeavam pelos títulos dos livros e aquele som se tornava cada vez presente até, enfim, cair no sono dos despreocupados.

É incrível como, com o passar dos anos, nossa relação com o tempo, com o andar dos ponteiros, possa mudar tanto! Mas tem coisas que realmente só o tempo pode trazer e nos fazer entender e aprender.

Infelizmente, ontem a guardiã dos relógios se foi, aos 97 anos. É difícil imaginar meus próximos anos sem aquele tic tac tão familiar, que cadenciou muitos momentos importantes da minha vida.

Ela não conseguiu encontrar um técnica boa o suficiente para dar um jeito no seu próprio relógio e agora foi sua vez de entregar os ponteiros ao sono dos despreocupados.

Mas, como ela mesma dizia, tudo tem seu tempo certo. Ao menos, ele me permitiu 38 anos de  convívio com essa grande avó, bisavó, mãe e mulher e nunca entregarei ao esquecimento nossas incríveis lembranças nem jamais deixarei de dar corda às suas histórias, exemplos e provérbios, para que os pequenos da família escutem seu tic tac mesmo na sua ausência.

Vó, te amo!

Fontes: Etxekodeco / Home Biba / Hviturlakkris