Esse era o nome do beijo que mais me irritava: demorado, apertado e muito molhado! Mas foi com o homem que me deu esses beijos  que aprendi  a gostar de móveis empoeirados; a avaliar se não não vale a pena matar o trampo se o sol tá muito bonito lá fora; a desconfiar de pessoas que nunca tenham comido uma coxinha no boteco, andado descalças, falado palavrões ou que nunca conversaram com um estranho; a tomar cuidado com os domingueiros; que o mérito não está nas grandes histórias, mas sim na forma de realizá-las e contá-las; que a tentação é boa sim e que o supérfluo muitas vezes é necessário; a esbravejar um ” vai à merda” se a felicidade está pequena; a reconhecer a necessidade de se ter um bom aparelho de som e uma luminária para leitura em casa.

Essa homem também me fez sentir muita vergonha todas as vezes em que apareceu barbudo para me chamar na rua, com um boné horroroso, onde podia se ler: ” Carga Pesada “, ou da vez em que acordei e me deparei com ele de pijama em cima da árvore para evitar que essa fosse cortada.

Dotado de um espírito completamente livre, ele nunca conseguiu trabalhar num ambiente fechado, com uma lâmpada esquentando sua cabeça. Desde que o conheci, sempre exerceu a profissão de diretor de fotografia e clicou as melhores fotos da minha vida.

Infelizmente, não teve tempo de me ensinar a fotografar, afinal num convívio de 15 anos precisamos sintetizar aquilo que julgamos mais importante; mas me mostrou que dá pra enxergar as coisas de muitas formas diferentes.

Hoje, esse homem completaria 75 anos e, certamente, estaria envolvidaço no FORMA:PLURAL, seja fazendo carretos, indo às compras dos móveis, palpitando muito ou simplesmente produzindo as fotos.

Feliz aniversário, pai!

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